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As Ilhas Sandwich e a visita do Rei Kamehameha e da Rainha Kamamalu a Inglaterra

Atualizado: 23 de jul. de 2023


Em Entre a Razão e o Desejo, o Jake recebe a missão diplomática de recepcionar a realeza das Ilhas Sandwich. O arquipélago foi assim nomeado pelo capitão James Cook, em 1778. Cook foi um famoso explorador, navegador e cartógrafo inglês. Em uma entrada em seu diário, em 2 de fevereiro de 1778, James explicou sua decisão de nomear o grupo de ilhas em homenagem ao seu patrono, o Conde de Sandwich:


citação james cook

Durante o início do século XIX, a nomeação de Cook foi predominantemente utilizada por estrangeiros para se referirem ao arquipélago.


Durante os reinados de Kamehameha I (1795-1819) e Kamehameha II (1819-1824) há registros sobre cartas de comércio, tratados, atividades missionárias e assuntos de navegação que comprovam o amplo uso e aceitação do nome das Ilhas Sandwich pelos nativos.


O primeiro jornal em língua inglesa impresso nas ilhas, publicado em Honolulu de julho de 1836 a julho de 1839, foi chamado de Sandwich Islands Gazette and Journal of Commerce. Outro antigo jornal de Honolulu intitulava-se Sandwich Island Mirror.


O nome do arquipélago começou a ser gradualmente modificado em 1840, quando as ilhas passaram a ser chamadas de Havaí em sua primeira constituição oficial.



A visita da realeza Sandwich a Inglaterra



kamehameha e kamamalu

Kamehameha II, também conhecido como Liholiho, herdou o trono das Ilhas Sandwich em 1819, aos 22 anos de idade. Três anos depois, o Rei George IV, da Inglaterra, enviou ao jovem rei uma pequena embarcação como presente de boas relações, cujo nome era “Príncipe Regente”.


Kamehameha enviou a George uma carta de agradecimento. Na correspondência, expressou seu desejo de colocar as Ilhas Sandwich sob a proteção da coroa britânica. Com a ausência de resposta, decidiu embarcar para a Inglaterra acompanhado por uma comitiva de oito pessoas e sua esposa favorita (ele tinha cinco!), a Rainha Kamamalu, que era também sua meia-irmã.


Em 27 novembro de 1823, o grupo deixou as Ilhas Sandwich em um baleeiro britânico — o L’Aigle, comandado pelo capitão Valentine Starbuck. O destino final da viagem era Londres, onde Kamehameha pretendia encontrar o Rei George IV em busca de aconselhamento.


Em fevereiro de 1824, o navio fez uma parada no Rio de Janeiro. Kamehameha e sua rainha foram recebidos por Dom Pedro I como visitantes de estado. No encontro, presentes foram trocados. A realeza das Ilhas Sandwich recebeu do imperador uma espada cerimonial cravejadas com diamantes, uma bainha de ouro e um anel de diamantes. Em troca, ofertaram Dom Pedro I com um colar de penas amarelas e um manto real feito de plumas de aves tropicais e raras de uso pessoal de Kamehameha. Infelizmente, o manto foi perdido no incêndio do Museu Nacional em 2018.


dom pedro I e o manto real

O grupo aportou em Portsmouth, Inglaterra, em 17 de maio de 1824 e se dirigiu a Londres. Ficaram hospedados no Osborn’s Hotel, no distrito de Adelphi, próximo ao Tâmisa.


Na época, os europeus tendiam a enxergar os Nativos Americanos e outros indígenas como selvagens exóticos. Em 19 de maio de 1824, o The Times relatou de forma grosseira:


"Dizem que o principal objetivo de Suas Majestades, ao fazer esta viagem muito longa, tão incomum com cabeças coroadas, é colocar as ilhas sob a proteção da Grã-Bretanha em consequência a uma tentativa dos russos de formarem um assentamento por lá, ao qual os nativos se mostram extremamente avessos, mas não fortes o suficiente para resistir abertamente. Outro projeto de Sua Majestade é anunciado como o de estudar a constituição inglesa, que ele entende ser peculiarmente adequada às ilhas, com o objetivo de conceder uma forma de governo tão excelente a seus próprios súditos. Ambos os propósitos, é provável, poderiam ter sido igualmente bem atendidos se "suas majestades" permanecessem em seus próprios domínios"

king george IV

Enquanto Kamehameha esperava por uma audiência com George IV — que não parecia ter pressa em conhecer os visitantes —, o ministro das Relações Exteriores, George Canning, colocou os habitantes das ilhas Sandwich sob o comando de Frederick “Poodle” Byng (Em Entre a Razão e o Desejo, o Jake acompanha o Byng nas obrigações diplomáticas). Byng os acompanhou por Londres em visitas ao teatro, à ópera e ao Royal Military Asylum.


Os jornais sugeriram, com uma boa dose de maldade, que Kamehameha não tinha roupas adequadas para uma audiência com o Rei. Entretanto, foi relatado que Liholiho se vestia com elegância e seguia os costumes britânicos em suas interações sociais. Logo, a atenção da mídia e do público foi cativada pelos hábitos incomuns e a aparência exótica dos visitantes, como relata o The Times em uma publicação de 20 de maio:


“Quem os visitou ontem, encontrou Suas Majestades se divertindo com um jogo de Whist, tendo a Rainha como parceira a sua criada, que é filha de um dos chefes da ilha; o parceiro de Sua Majestade foi o Governador da ilha, onde a sede do governo funciona. As damas usavam robes de chambre largos cor de palha, amarrados com cordões cor-de-rosa, e na cabeça usavam turbantes de penas escarlates, azuis e amarelas. Os dois homens apareceram em trajes europeus, vestindo casacos pretos lisos, meias de seda e sapatos. Esses ilhéus têm alturas muito grandes. Os homens parecem ter mais de um metro e oitenta e são extremamente robustos. As fêmeas são igualmente gordas e grosseiras, e proporcionalmente mais altas que os homens. Todo eles são da cor de cobre mais escura, quase se aproximando do preto”

O The Morning Chronicle escreveu em 21 de maio:



George Cruikshank
"O Rei é um homem de semblante agradável e conduta cavalheiresca; ele é alto e bem formado…. A Rainha é uma mulher grande e parece gostar de se vestir, trocando de trajes três ou quatro vezes ao dia. Sua Majestade está um tanto indisposta e frequentemente se retira para descansar durante o dia; ela e sua irmã fumam seus charutos com tanto gosto quanto alguns de nossos dândis modernos, e constantemente se divertem jogando cartas. Um deleite gratificante foi ontem proporcionado a eles pelas apresentações do célebre Sr. Punch e sua família, cujos méritos eles reconheceram com uma ampla recompensa; eles também ficaram muito satisfeitos com uma exposição de Fantoccini”

O proprietário do hotel Osborn's foi obrigado a formalizar um pedido de proteção no escritório do magistrado, tamanha era a curiosidade dos londrinos em torno do Rei e da Rainha, aos quais os jornais relataram estarem “chamando a atenção ao se exibirem nas janelas” (The Morning Chronicle, 22 de maio, 1824).


"as multidões de ociosos que se aglomeram na frente de sua casa de manhã à noite para dar uma espiada na Realeza Sandwich. …Nenhuma carruagem podia se aproximar da porta do hotel, mas foi o edifício foi instantaneamente cercado por todos os lados por uma multidão de curiosos de boca aberta, todos pisoteando e lutando uns sobre os outros e enfiando os narizes curiosos nas janelas em busca da realeza cor de cobre — para grande aborrecimento dos clientes da casa, prejuízo dos negócios e escândalo em toda a vizinhança.

king kamehameha and queen kamamalu

Apesar de todas as atividades e gentilezas oferecidas por Byng e pelo ministro da Relações Exteriores, o Rei George continuava a ignorar seus visitantes. Em 28 de maio, Canning ofereceu um baile em sua residência em Gloucester Lodge em homenagem a Kamehameha e a Rainha. Estiveram presentes cerca de duzentos convidados, entre eles o Duque e a Duquesa de Gloucester (irmã de George IV) e o Duque de Wellington. Em um relato, nada agradável, Dorothea Lieven, esposa do embaixador russo e uma das patronesses do Almack’s (você pode ler mais sobre ela nesta postagem), confidenciou em uma correspondência ao chanceler austríaco Clemens von Metternich:


“Temos o Rei e a Rainha das Ilhas Sandwich aqui. O Sr. Canning tentou agradar Suas Majestades; mas não foi um sucesso. Ele os convidou para uma recepção. As irmãs do Rei estavam lá. Todos os encararam da maneira mais incomparável; do modo que só os ingleses sabem olhar. Algumas pessoas, guiadas por mim, arriscaram-se a rir; e os selvagens não se deixaram entreter. Imagino que não ouviremos mais falar deles, exceto em Covent Garden ou no Astley's Circus”.

O capitão George Byron (primo do famoso poeta) foi mais comedido e gentil em suas palavras sobre a visita dos “selvagens”:


Teria sido impossível para qualquer pessoa ser mais tratável ou adaptar-se com melhor humor aos usos deste país do que todo o grupo. O decoro do comportamento foi admirável durante a estadia no hotel. Nenhum caso ocorreu em que eles ultrapassaram os limites da decência ou civilidade em suas relações com as diferentes pessoas designadas para atendê-los; [...]
É verdade que, desacostumados com os nossos hábitos, pouco respeitavam os horários regulares das refeições e gostavam de comer com frequência, embora não em excesso. O maior luxo eram as ostras, das quais eles gostavam particularmente; [...]
Uma vez, e apenas uma vez, eles beberam uma quantidade considerável de vinho…. Este evento deu a todos eles a maior satisfação, e eles ficaram sentados festejando a noite toda; mesmo assim, eles consumiram apenas vinte garrafas de vinho, e isso não era muito entre tantos.
A moderação deles, em todos os aspectos, foi notável, quando consideramos a natureza e os hábitos dos homens semicivilizados.

Havia um desacordo sobre a adequação de receber Kamehameha na corte. Em 28 de junho, o jornal John Bull escreveu:


O COURIER na semana passada publicou um parágrafo explicando que o Rei das Ilhas Sandwich tem cinco brigues em sua marinha, em vez de cinco canoas; e disse-nos, além disso, que seus territórios excedem em tamanho todas as nossas colônias das Índias Ocidentais; que eles são civilizados, realizados, etc.
Qual o objetivo de toda essa baforada, realmente não conseguimos entender; mas o efeito produzido pelo charlatanismo de tratar essas pessoas como os monarcas europeus são tratados pode ser percebido por um trecho de algum jornal vespertino, que é copiado no Chronicle de sábado. No que diz respeito ao fato de o homem ser um Rei, negamos o fato - não há Rei nas ilhas Sandwich — é uma questão de história e de fato que 'as ilhas não estão unidas sob um soberano' — essa pessoa é portanto, um chefe, a quem devemos conceder os direitos de hospitalidade, mas a quem não devemos mostrar um respeito e deferência que não lhe são devidos e que, aplicados a tal pessoa, tornam-se absurdos e ridículos.
A Rainha, dizem, cometeu um solecismo extraordinário em uma festa, noites atrás — e “ainda bem que não foi pior”, foi a observação geral sobre o fato —, mas, no momento, Suas Majestades foram diagnosticadas com sarampo, o que deverá detê-los dentro das portas.

Um final trágico


Sarampo era uma doença que não existia nas Ilhas Sandwich. Kamamalu foi a primeira a falecer, em 8 de julho, aos 22 anos. De acordo com uma matéria publicada no The Times, em 10 de julho, a Rainha manteve-se “bastante sensata e composta. O rei despediu-se pela última vez por volta das 10 horas da manhã, antes da qual ela o informou que sentia estar morrendo e estava bastante resignada. A separação deles foi comovente.”


A nota no John Bull sobre a morte da Rainha foi, outra vez, fria e preconceituosa:


Certamente não prevíamos um final tão trágico para a farsa absurda que foi encenada, na qual essas pobres criaturas foram as principais intérpretes — e, no entanto, a menor consideração teria nos preparado para o evento. Um grupo de selvagens é repentinamente transportado de suas cabanas, em seu clima nativo, para um hotel fechado na densa e esfumaçada Londres — seus membros, por uma questão de decência, estreitados e confinados em roupas europeias; suas horas de acordar e dormir totalmente alteradas; sua alimentação subitamente alterada de inhame e banana para ricas sopas e fricandeaux, e todas as tentativas melancólicas de cozinhar o que é suscetível à cozinha do hotel em que estão confinados — o riacho puro e límpido, a bebida habitual deles, suplantado pela mistura de Buxton ou Whithbead, ou Calvert, ou algum outro Whig-washery, em que, juntamente com vinhos e bebidas espirituosas, as pobres criaturas foram obviamente autorizadas a deleitar-se com profusão ilimitada e selvagem — a consequência é, a pobre fêmea morre primeiro e, com toda a probabilidade, logo será seguida pelo homem.

Dias antes de sua morte, Kamehameha foi transferido do Osborn’s Hotel para o Caledonian Hotel, um local mais reservado para que tivesse privacidade e uma vista para o rio. O soberano das Ilhas Sandwich faleceu no dia 14 de julho, aos 27 anos, sem que tivesse a oportunidade de conhecer George IV.


O The Times publicou em 15 de julho:


“Às duas horas ele piorou de forma alarmante e parecia não conhecer ninguém: o almirante foi levado à sala e reduzido às lágrimas. O Rei não deu atenção a ele, nem a qualquer outra pessoa ao seu redor. Daquele momento até as quatro horas ele continuou dizendo: 'Vou perder minha língua, vou perder minha língua;' e pouco antes de dar seu último suspiro, ele disse fracamente: 'Adeus a todos, estou morto, estou morto. Estou feliz.” Depois de pronunciar essas palavras, ele expirou nos braços de Madame Poki.”

The Morning Post no mesmo dia:


“Na verdade, as circunstâncias são particularmente dolorosas. O Rei e a Rainha, de um povo que há pouco mais de meio século eram desconhecidos dos europeus e que viviam em estado de barbárie, visitaram o país que os deu a conhecer o mundo pela primeira vez; e provaram, em suas próprias pessoas, as bênçãos da civilização. Suaves e amáveis em suas disposições, eles adotaram nosso traje e estavam ansiosos para copiar nossos modos tanto quanto possível e, se tivessem vivido para voltar para casa, sem dúvida teriam introduzido muitos de nossos costumes; seu próprio conhecimento e exemplo os teria capacitado a facilitar a marcha da civilização; enquanto as recepções hospitaleiras que recebiam teriam enchido os habitantes das ilhas de alegria e gratidão.”

Em 11 de setembro, os nativos das Ilhas, liderados pelo Governador Boki, foram recebidos por George IV no Castelo de Windsor. O Rei recebeu os convidados com cortesia, expressou sua tristeza pela morte de seus monarcas e prometeu às Ilhas Sandwich proteção contra invasões estrangeiras.


Em 29 de setembro, a fragata HMS Blonde, comandada pelo capitão Byron, deixou Portsmouth para transportar os habitantes das Ilhas Sandwich e os restos mortais de seu falecido Rei e Rainha de volta a Oahu.


A viagem de retorno encerrou a trágica visita de Kamehameha e Kamamalu a Inglaterra.


 

Fontes:



From Cook to the 1840 Constitution: The Name Change from Sandwich to Hawaiian Islands - Russell Clement


Peter Quennell, ed., The Private Letters of Princess Lieven to Prince Metternich, 1820-1826 (New York, 1938)


George Anson Byron, Voyage of H.M.S. Blonde to the Sandwich Islands in the Years 1824-1825 (London, 1826)


Imagens utilizadas nesta postagem*:


- Nathaniel Dance - from the National Maritime Museum, United Kingdom/ Official portrait of Captain James Cook - Portrait of King Kamehameha II of Hawaii attributed to John Hayter, 1824, Iolani Palace - Portrait of Queen Kamāmalu. This portrait hangs in Grand Hall of Iolani Palace/John Hayter - Pedro I do Brasil - Simplício Rodrigues de Sá - Museu Imperial de Petrópolis - MANTO OWHYEEN - Acervo Museu Nacional

- Ilustração de Punch and Judy por George Cruikshank

- J. W. Gear - National Library of Australia "Their Majesties King Rheo Rhio, Queen Tamehamalu, Madame Poke" by J. W. Gear. Hand colored lithograph dated depicting King Kamehameha II (Liholiho) and Queen Kamamalu and their party attending a performance at the Drury Lane Theatre on June 4th, 1824


* todas as imagens estão em domínio público


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